4 mil anos de brincar

História da boneca no Brasil

A história da boneca no Brasil começa muito antes da indústria: com a cerâmica modelada por mulheres indígenas, com o sabugo de milho amarrado em casa e com o retalho costurado à mão. A boneca de fábrica é um capítulo tardio — chega de fato ao alcance da maioria só na segunda metade do século XX, quando o plástico e a produção em série nacional derrubaram o preço do brinquedo.

Essas camadas nunca se substituíram por completo. Elas convivem: no mesmo país em que a Barbie chegou licenciada nos anos 1980, mulheres seguiam modelando ritxoko no Araguaia e costurando bonecas de pano em cooperativas.

Antes da indústria: cerâmica karajá, sabugo e pano

As ritxoko são bonecas de cerâmica produzidas por mulheres do povo Karajá, na bacia do Araguaia. Não são retratos genéricos: representam cenas da vida da aldeia, rituais, animais, figuras humanas com pintura corporal e adornos precisos. Passam de mãe para filha como saber técnico e como repertório de imagens, e o conjunto de práticas envolvido é reconhecido pelo Iphan como patrimônio cultural imaterial brasileiro.

No meio rural, a boneca de sabugo de milho foi por gerações a primeira boneca de milhões de crianças: sabugo como corpo, barbas ou palha como cabelo, rosto desenhado a carvão ou bordado, vestido feito com sobra de roupa. Junto dela, a boneca de pano costurada em casa — e, na tradição afro-brasileira, bonecas de amarração feitas sem agulha nem cola, como a abayomi, e as figuras de baianas e quitandeiras com tabuleiro.

Praticamente nada desse material sobreviveu. Sabugo, palha e tecido de uso apodrecem, e brinquedo de criança pobre não era guardado em vitrine. O que temos são relatos, registros de folcloristas e as tradições que continuaram vivas até serem documentadas no século XX.

Século XIX: a porcelana europeia nas casas ricas

Enquanto isso, famílias abastadas das cidades importavam bonecas europeias. Cabeças de biscuit francesas e alemãs, corpos de couro ou de composição, enxovais de renda — o repertório completo descrito na página sobre a boneca de porcelana circulava no Rio de Janeiro, em Salvador, no Recife e em São Paulo, comprado em lojas de artigos importados ou trazido de viagem.

Era objeto de distinção social antes de ser brinquedo. A boneca fina exibia a capacidade da família de importar, e servia de treino de comportamento e de moda para meninas de elite. Os exemplares que sobraram dessa época em coleções brasileiras vieram, quase todos, dessas casas.

1937: a Estrela e o nascimento da indústria nacional

A fundação da Estrela, em 1937, marca o início de uma indústria brasileira de brinquedos com escala e marca própria. Nas primeiras décadas, a produção acompanhou a tecnologia disponível no país: massa, composição, celuloide e, depois da guerra, os plásticos, que mudaram tudo — sequência detalhada na evolução dos materiais das bonecas.

Um fator político pesou tanto quanto o técnico. Por décadas, a política brasileira de restrição a importados manteve o brinquedo estrangeiro praticamente fora das lojas. O efeito foi duplo: protegeu fabricantes nacionais e obrigou marcas internacionais que quisessem entrar a licenciar sua produção para uma fábrica daqui. Grande parte das bonecas que crianças brasileiras tiveram entre os anos 1950 e 1980 nasceu dessa combinação.

1966: a Susi e a primeira boneca-fenômeno brasileira

A Susi, lançada pela Estrela em 1966, é a primeira boneca nacional a virar fenômeno cultural. Corpo de manequim jovem, guarda-roupa vendido à parte, coleções que acompanhavam a moda de cada temporada — o modelo de negócio da fashion doll, adaptado ao Brasil e com identidade visual própria. Durante quase duas décadas ela foi a boneca de referência do país, e é hoje uma das categorias mais ativas do colecionismo brasileiro, com um acervo de roupas etiquetadas que colecionadores catalogam por década. A trajetória completa está em história da boneca Susi.

A Susi perdeu espaço quando a Barbie passou a ser fabricada no Brasil sob licença da Mattel, nos anos 1980 — episódio que rendeu bonecas com particularidades de fabricação local hoje muito procuradas por colecionadores.

Os anos 1980 e 1990: televisão, licenciamento e a boneca da Xuxa

A partir dos anos 1980, a boneca brasileira passou a ser vendida pela televisão. Personagens de programa infantil, de novela e de desenho viraram linha de brinquedo, e o ciclo de vida de um lançamento passou a depender da audiência.

O caso mais expressivo é a boneca da Xuxa, ligada ao programa infantil de maior alcance da TV brasileira no período. Foi um sucesso de escala rara para o mercado nacional, com várias versões lançadas ao longo dos anos, e virou objeto de nostalgia e de coleção para quem foi criança na época.

Vale lembrar que a boneca brasileira mais antiga do imaginário nacional não é de plástico nem de fábrica: a Emília, personagem de Monteiro Lobato criada nos anos 1920, é uma boneca de pano falante que atravessou livros, rádio e televisão antes de virar brinquedo, e é até hoje a boneca mais reconhecível da cultura brasileira.

O mercado atual: bonecas negras e produção independente

A mudança mais relevante das últimas duas décadas no Brasil não veio de tecnologia, e sim de representatividade. Bonecas negras deixaram de ser exceção de catálogo e passaram a ocupar espaço tanto na indústria quanto, sobretudo, na produção independente: pequenas marcas, artesãs e cooperativas que fazem bonecas de pano e de vinil com tons de pele, cabelos e traços variados, vendidas em feiras e diretamente pela internet.

O argumento pedagógico por trás disso é simples e está bem documentado na área de educação: a criança constrói autoimagem também com o que segura na mão.

Em paralelo, cresceu no país o mercado de bebês reborn, com maternidades e artistas brasileiras produzindo peças hiper-realistas por encomenda — um segmento que praticamente não existia aqui até os anos 2000 e que hoje tem circuito próprio de eventos e de venda.

O que o Brasil acrescentou à história da boneca

Três coisas. Uma tradição indígena de cerâmica figurativa reconhecida como patrimônio, que não tem equivalente direto em outros países. Uma cultura de boneca de pano e de material de sobra que sobreviveu à industrialização em vez de desaparecer com ela. E um mercado que, por décadas fechado a importados, obrigou fabricantes locais a criar bonecas próprias — a Susi entre elas — em vez de apenas distribuir as estrangeiras.

Para ver como essas tradições dialogam com as de outros países, vale ler bonecas pelo mundo, no hub de história das bonecas.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira boneca brasileira famosa?

A Susi, lançada pela Estrela em 1966, é a primeira boneca nacional a se tornar fenômeno de massa e a sustentar uma linha completa de roupas e acessórios. Antes dela houve bonecas industriais brasileiras, mas nenhuma com o mesmo alcance cultural nem com a longevidade que a Susi teve no imaginário do país.

O que são as bonecas ritxoko?

São bonecas de cerâmica modeladas por mulheres do povo Karajá, na região do rio Araguaia, representando cenas da vida na aldeia, rituais, animais e figuras humanas com pintura corporal. O saber envolvido em produzi-las é reconhecido pelo Iphan como patrimônio cultural imaterial brasileiro.

Por que a Barbie demorou a chegar ao Brasil?

Por barreira comercial. Durante décadas, a política de restrição a importados praticamente fechou o mercado brasileiro a brinquedos estrangeiros, e o caminho de entrada era licenciar a produção para uma fábrica nacional. Foi assim que a Barbie chegou às lojas daqui fabricada pela Estrela, com moldes e materiais adaptados à produção local.

Como era a boneca de sabugo de milho?

O sabugo servia de corpo e cabeça, o cabelo era feito com a palha ou com as barbas do milho e o rosto era desenhado com carvão, tinta ou linha. Às vezes ganhava vestido com retalho de roupa velha. Era brinquedo de fabricação caseira, comum no meio rural brasileiro até meados do século XX, e praticamente nada dele sobreviveu.