História de Monster High
A história de Monster High tem quatro atos bem definidos: a estreia em 2010, o auge mundial entre 2012 e 2014, um reboot malsucedido que apagou a linha por volta de 2018 e o retorno em 2022 com a terceira geração. Em quinze anos, a franquia da Mattel saiu de ideia arriscada — bonecas de moda com pele verde e costuras — para fenômeno global, sumiu das prateleiras e voltou puxada pela geração que cresceu com ela.
2010: a escola criada por Garrett Sander
O conceito é do designer Garrett Sander: uma escola frequentada pelos filhos dos monstros clássicos, em que ter presas, escamas ou parafusos no pescoço é o normal. A vantagem estratégica dessa premissa é que os personagens-pais são figuras de domínio público — Drácula, o monstro de Frankenstein, o Lobisomem, a Múmia, a Medusa —, o que dispensava licenciamento e dava reconhecimento imediato.
A Mattel lançou a marca por camadas. Episódios curtos publicados na internet apresentaram a escola antes das bonecas chegarem às lojas. O primeiro sortimento, de 2010, trouxe Frankie Stein, Draculaura, Clawdeen Wolf, Lagoona Blue, Cleo de Nile e Deuce Gorgon, cada uma com um pet e um diário em miniatura escrito na voz da personagem. Uma série de livros escrita por Lisi Harrison ampliou o universo no mesmo período.
O discurso era explícito: aceite o que faz de você diferente. Numa prateleira dominada por bonecas simétricas e sorridentes, uma personagem cujas mãos caem sozinhas e outra que desmaia ao ver sangue soaram como novidade real.
O auge entre 2012 e 2014
Foi nesse intervalo que a linha virou máquina. Chegaram os especiais e filmes de média-metragem, várias ondas de lançamento por ano, papelaria, roupas, jogos e uma franquia irmã, Ever After High, baseada em filhos de personagens de contos de fadas. A imprensa especializada passou a tratar Monster High como a segunda linha de bonecas da Mattel, atrás apenas da Barbie.
O ritmo de lançamento explica o tamanho do catálogo que os colecionadores enfrentam hoje: linhas de baile, praia, pijama, viagem, filme e fusão, todas com o elenco inteiro, todas com acessórios próprios. É o período em que apareceram as personagens que ampliaram o mapa da escola — a gárgula francesa, a dragão chinesa, a caveira mexicana, a autômata a vapor —, listadas na página de personagens Monster High.
No Brasil, o timing foi bom. As bonecas entraram no varejo de rede, os episódios e especiais ganharam dublagem em português e os livros foram traduzidos. A marca manteve o nome em inglês e virou vocabulário de pátio de escola.
Por que a linha perdeu força
Nenhum motivo isolado derrubou Monster High. Somaram-se três. O primeiro foi a saturação: lançar dezenas de versões por ano das mesmas personagens cansa até o público mais fiel e transforma a coleção em corrida impossível. O segundo foi a mudança do mercado infantil, com a ascensão de linhas de surpresa e desembalar, das quais a LOL Surprise é o exemplo mais óbvio, que deslocaram a atenção e o dinheiro das crianças. O terceiro foi o corte gradual de custo nas próprias bonecas — figurinos mais simples, menos acessórios, fim dos diários —, que corroeu justamente o diferencial da marca.
A produção original foi se encerrando por volta de 2016. As últimas ondas, ambiciosas em conceito, chegaram pouco às lojas brasileiras e hoje estão entre as mais difíceis de achar, como detalhamos na página da Monster High G1.
2016 a 2018: o reboot que não pegou
Em 2016 a Mattel redesenhou a franquia inteira. A geração que as fãs chamam de G2 trouxe rostos novos e mais infantis, corpos com menos pontos de articulação, roupas simplificadas e o abandono de boa parte dos brindes. A história também foi reiniciada, com um especial que reapresentava a escola do zero.
O resultado agradou pouco a todos os lados. As fãs que acompanhavam desde 2010 rejeitaram a perda de identidade visual, e o público infantil novo não foi conquistado em volume suficiente. A linha saiu de circulação por volta de 2018, sem anúncio de encerramento, do jeito que produtos costumam morrer: sumindo da prateleira.
O hiato e a pressão das fãs adultas
Entre 2019 e 2021 não houve linha infantil nova, e aconteceu o que sempre acontece com marca amada e descontinuada: o mercado de segunda mão disparou. Bonecas de 2010 que custavam preço de brinquedo passaram a ser negociadas entre colecionadores por valores muito superiores, o cabelo original e a caixa lacrada viraram critérios de preço, e comunidades on-line organizaram campanhas pedindo o retorno da linha.
Foi também nesse período que a Mattel começou a tratar o público adulto de forma direta, com a linha Skullector — bonecas de tiragem limitada inspiradas em personagens de filmes de terror, vendidas pelo site da própria empresa e esgotadas em minutos. Esse mercado paralelo, descrito no guia de coleção Monster High, provou que havia demanda adulta antes mesmo de a linha infantil voltar.
2022: a G3, o filme e o retorno
O relançamento veio em 2022 em três frentes simultâneas: bonecas da terceira geração, uma série animada e um filme em live-action, seguido de continuação no ano seguinte. O desenho mudou — corpos de proporção mais jovem, tons de pele mais variados, Frankie Stein não-binárie e uma Clawdeen Wolf de pele mais escura e cabelo cacheado natural.
Em 2023 a Mattel fechou o círculo com as reedições Creeproduction, que recolocam em produção o desenho exato das bonecas de 2010. Hoje a franquia opera em três faixas ao mesmo tempo: infantil, com a G3; nostálgica, com as reedições; e adulta, com a Skullector. Quinze anos depois da estreia, a escola dos filhos de monstros conseguiu o que poucas linhas de boneca conseguem — sobreviver ao próprio fim e voltar sem depender só de nostalgia.
Perguntas frequentes
Quem criou Monster High?
Garrett Sander, designer da Mattel, é o criador do conceito: uma escola frequentada pelos filhos dos monstros clássicos, em que ser diferente é a norma. A linha estreou em 2010 combinando bonecas, episódios curtos na internet, diários impressos e livros.
Por que Monster High foi cancelada?
Não houve um cancelamento anunciado com estardalhaço. A produção original foi sendo encerrada por volta de 2016, o reboot de 2016 a 2018 não repetiu o desempenho e a linha saiu de circulação. Saturação de lançamentos, concorrência de novas marcas e o desagrado do público com o redesenho explicam boa parte da queda.
Quando Monster High voltou?
Em 2022, com a terceira geração, uma série animada e um filme em live-action lançados quase ao mesmo tempo. No ano seguinte vieram uma continuação do filme e as reedições Creeproduction, que recuperam o desenho das bonecas de 2010.
Monster High fez sucesso no Brasil?
Fez. A marca manteve o nome em inglês, as bonecas chegaram ao varejo de rede, os episódios e especiais ganharam dublagem em português e os livros foram traduzidos. A geração que brincou com as bonecas entre 2011 e 2015 é hoje boa parte do mercado brasileiro de segunda mão.